15.1.08

Poor clown

O espetáculo se escancara, deixando o palco nu de suas cortinas. E eis que fica explícito, sob os claríssimos holofotes, o que todos os olhos atentos procuram: o nariz e boca rubros e o rosto branco do pó do arroz.
O público, estarrecido, deixa rolar lágrimas de gargalhadas daquele pobre sujeito, que ainda nem se manifestou.

Silêncio. Silêncio e atenção. (Shiiii...! Preste atenção nessa sutileza: a imensa crueldade impetrada a este pobre clown está sendo alimentada).

- Óh, clown, não chore. Pelo menos não nos deixe ver suas lágrimas. Elas borrariam sua maquiagem cuidadosamente feita para nós. Somente sorria, pois pagamos alguns contos de réis para trazermos aqui nossas crias, e fazermos papel de pais. Sabemos que isso acontece somente nos finais de semana, pois durante ela estamos demasiado ocupados com nossas outras (e talvez únicas) prioridades. Nossos filhos querem rir de ti, então sorria!

O palhaço dilacerado então se contorce por dentro e se estica por fora, num movimento contraditório - seus braços se esticam, suas tripas se contraem.
Por fora ele expande, por dentro se retrai.

E as lágrimas ficam presas meio caminho dos seus canais lacrimais, paradas, impedindo o corpo de por para fora o amargor estagnado dentro.

Pobre palhaço miserável que pinta o rosto para esconder os infortúnios que sua expressão, invariavelmente, deixaria transparecer.

Após concluído o espetáculo, para a satisfação geral, todos se encaminham para os respectivos lares, tendo em mente uma sensação de papel cumprido.

As luzes do palco se apagam de maneira súbita. O palhaço vira as costas tateando no escuro o caminho de volta ao seu camarim. Abre a porta, cansado, nauseabundo. Sujo e suado. Limpa o rosto sem mais se importar com a maquiagem, borrando-a de cima a baixo. Suor, frustrações, pó de arroz, lápis e batom se misturam numa única amálgama. Mais uma vez está ele de volta àquele lugar, onde se encontram as velhas fantasias, os velhos sonhos e os desejos não realizados. Lugar onde deveria repousar sua glória, e, no entanto, só repousam suas amarguras.

O palhaço sonhava em ser gente séria, senhor de respeito. Mas a vida fez dele a comédia.
Sua presença por si só já era cômica: o jeito de andar, de olhar, de chorar, de falar – seu jeito de agir. Ele era a própria piada. Era dele de quem todos riam: os senhores e senhoras de respeito, as crianças, e às vezes talvez até os animais, e os objetos. Todos se concentravam naquela face troncha e desengonçada para aliviar os estresses do dia-a-dia.

Agora, no escuro daquele camarim, sozinho, ele grunhe:
- Riam, riam! Sou um pobre desgraçado, humilhado, encharcado do riso desse público doentio e hipócrita, que se serve de mim ao seu bel-prazer.
Não sou a comédia. Sou o próprio escárnio. Sou a merda do próprio escárnio dessa bosta de vida.

9 comentários:

disse...

Que triste! Pobre palhaço mesmo.

Dancer disse...

Pesado... Enquanto lia carreguei o fardo do pobre palhaço...
Pude andar com suas sandálias.
Muito bem escrito!

Cris disse...

Somos sempre palhaços de alguém no palco da vida...sem diferença.

Bj

Edna Federico disse...

Coitado...alegre por fora, dilacerado por dentro.
A vida por vezes é cruel!
Beijo

BABI SOLER disse...

pois é, as aparências enganam e tá cheio de palhaço por aí.

Mateus disse...

Sempre alguém sofre para o prazer de outros...

Poesias que vem da alma disse...

Hoje é raro alguém sacrificar-se para ver outros riem.Ótimo texto.
Valeu!!

Poesias que vem da alma disse...

Lindo texto, causa uma emoção,uma tristeza, mais a gente quer chegar até o finall!
Parabéns!

marianopereira.zip.net
sua visite será bem vinda.

Paulo Goldrajch disse...

Num determinado momento da vida todos nos tornamos palhaços...