2.4.07

A criança esquecida


Hoje eu estava no ônibus. Estava lá quietinha quando ouço uma criança chorando, uma possível mãe gritando e um burburinho de gente reclamando e reivindicando – o quê só Deus sabe. Mas o fato é que quando a criança e mãe desceram do ônibus, algumas pessoas continuaram a reclamar. Dentre as pessoas no meio de qualquer confusão, há sempre aquele indivíduo que não se segura, levanta a voz e age como se fosse o dono da situação e reverente dono da verdade. E este se levantou e falou em altíssima voz e excelentíssima dicção: “Eu trabalho com criança. Eu sei como é isso! Tem gente que se esquece que um dia foi criança.”

É. É verdade! Um dia a gente foi criança. Um dia eu fui criança! E eu quase havia me esquecido disso. Talvez, se aquele estranho não tivesse me lembrado, eu mesma não lembraria. Não lembraria nem tão cedo se não fosse por acidental indução.

Um dia eu fui criança...

Entorpeci-me nesse pensamento. Ingressei num lento e profundo mergulho dentro de minha própria memória encardida no cerebelo e tentei puxar de volta as lembranças nem tão longínquas, mas mesmo assim esquecidas. E só os que já experimentaram da nostalgia é que sabem o quão estranho é abrir uma gaveta velha e empoeirada e dar de cara com velhas lembranças - as mesmas lembranças que um dia foram nosso importantíssimo presente.

Eu fui criança! E quão bom é saber disso!

Quão bom é saber que um dia eu não tive vergonha,

Que um dia eu tive medo do escuro;

Que um dia eu fiz perguntas idiotas sem medo de parecer tão idiota quanto a pergunta;

Que um dia eu imitei a bailarina dançando na TV na frente de um monte de gente;

Que um dia eu cantei alto sem nem me preocupar com o tom certo, muito menos melodia;

Que um dia (um não, vários) eu fiz xixi na cama;

Que um dia eu chorei de medo do bicho-papão na frente de todo mundo;

Que um dia eu desenhei uma casinha mal-feita, um sol e uma árvore e achei que era o desenho mais lindo do mundo;

Que um dia eu compus uma canção de sucesso e me esqueci no dia seguinte.


Um dia eu tive até coragem para ser astronauta.


Aí eu não sei o que acontece que a gente se esquece de tudo. Acorda, dorme, acorda, dorme. Dia após dia. E a magia toda se dissipa.

Acho que é a amnésia pela qual se passa na puberdade.

O adulto é nada mais que uma criança esquecida.

Pobre criança esquecida...

Um comentário:

Ortrud disse...

Hmm que bonito final Paula :)

Posso te lembrar?
"Os macacos caem das árvores?"
hahaha