14.6.07

O grande formigão

Como sempre simples fatos cotidianos são bastantes para florescer minha fértil imaginação. E como se não bastasse minha já bastante fertilidade lóbulo cerebral, são freqüentes os incidentes plausíveis de profunda reflexão etimológica (ou não). Mas a negativa da sentença não vem ao caso agora (ou vem). [Droga!]


Bem, o que venho a contar hoje é fato simples, talvez já ocorrido na vida de qualquer um de vós.

O fato é que dia desses, enquanto tentava ler ao maravilhoso e criativo Sr. Jostein Gaarder, me apareceu um enorme formigão preto repulsivo caminhando misteriosamente pelo meu travesseiro. E eu, comigo mesma, só pude refletir:

— Como? O que é isso?

Fiquei realmente impressionada com o bichano, eu, que até então estava somente acostumada às minúsculas formigas marrons que teimam em afanar qualquer açúcar existente em minha cozinha durante a noite. Neste caso, o bicho era enorme, cabeçudo, lustroso e eu podia até enxergar suas antenas. Era um desses bichos que você, quando vê, se pergunta se alguém mais já viu um bicho daqueles e de que raios ele saiu.

O formigão caminhava lentamente, vindo na direção à minha cabeça. O que essa criatura estaria fazendo ali? Ora, sem pensar duas vezes, levantei-me e, dando um forte assopro, arremessei o formigão para o chão. Sentei-me na cama e fiquei observando as peripécias confusas daquele inseto idiota.

Por alguns instantes, maltratando o inseto vulnerável, gozei de um prazer malfazejo. O formigão tentava desesperadamente escapulir livre de mim. Tentava viver e, lutando arduamente atacava o meu pé que, para ele, devia ser um monstro colossal e abeutalhado. O formigão, depois de levar muitas pancadas, parcialmente esmagado, ainda tentava fugir, procurando às tontas um outro rumo qualquer que o levasse para longe de mim.

A formiga não conseguiu me picar, mas a minha consciência sim:

— Ora, Bina — pensei comigo — embora se trate de um inseto nocivo, é também um ser vivo e maltratá-lo sentindo prazer é um pecado. Acaba logo com essa crueldade infantil!

Por um momento, eu não sabia o que fazer. Então abri o dicionário e procurei a letra “F”, onde encontrei: “Formiga — s. f. Entom. Nome genérico dos insetos himenópteros que vivem em sociedade, debaixo da terra, em ninhos sobre árvores, no oco dos paus etc.”

Inseto himenóptero? Humm! Agora o meu espírito está satisfatoriamente esclarecido.

Odeio este dicionário!

Mirei o dicionário sobre o infeliz himenóptero e, como um carrasco insensível, deixei cair para que seu calamitoso destino se cumprisse.


Eu gostaria de terminar este pequeno conto assim: “A formiga preta ainda lá está, esmagada sob o dicionário. E finalmente estendida confortavelmente sobre a cama, tornei a ler as letras encantadoras do Sr. Jostein Gaarder.”

Entretanto, para falar a verdade, o dicionário já está limpo e guardado no armário. E o único motivo do relato deste fato é o excesso constante de pensamentos titilantes que exigem ser postos para fora da cabeça, para que haja um segundo apenas de paz. Porém, noite após noite, confesso, que espero de boca salivante que semelhante himenóptero adentre o sossego de meu cômodo e eu possa gozar do mesmo prazer infantil novamente.


Peso na consciência?

De jeito nenhum.

Um comentário:

Alejandra disse...

Hahaha do tipo que eu gosto!!

Eu tinha colocado um mini conto tipo esse na minha página de scraps mas acabei apagando...
Chegou a ler?
Era cruel também =D
hahah