24.5.07

Insidiosas armadilhas

Como se dizia nos livros de matemática, tomemos o seguinte enunciado:

“Ele, apesar de chefe de família exemplar, como muitos outros homens, estava atrasado naquela manhã madrasta. Preocupado em não denegrir sua folha de serviços e não irritar seu chefe, ainda mais que um gato preto passara à sua frente logo ao sair de casa, acenou canhestramente, em meio aos papéis que teimavam em querer escapar de suas mãos naquela ventania, para o motorista do primeiro táxi que passou à sua frente. Perguntou ao motorista se podia fumar um cigarrinho e este assentiu. Estava preocupado porque vinha exercendo, em caráter putativo, o papel de analista de pedidos de patrocínio cultural feitos à sua empresa. E, depois de uma viagem atrapalhada, em que até mesmo a barbeiragem de uma mulher ao volante lhe fez perder muito tempo, já chegou estressado ao serviço. Felizmente, pegou o elevador que estava tripulado pela bela ascensorista Wilma e, olhando os seios dela, que quase se mostravam por baixo da blusa mal abotoada, provocou-lhe um sorriso coquete, ao dizer-lhe 'bonita blusa, Fernandinha'. E, finalmente, em cima da hora, sentou-se à escrivaninha, para começar mais um dia do trabalho que sustentava sua mulher, a empregada que facilitava a vida dela e os dois filhos aborrecentes. Programa de índio, mas o que ele podia fazer?”

Pronto. Parece o começo de um conto chatinho, ou qualquer coisa assim. Mas não é. E, em mais um serviço público desta coluna, passo a abrir-lhes os olhos e demonstrar como o politicamente incorreto nos espreita e tocaia a todo instante. Para começar, porque “ele, como muitos outros homens”? Alguém faz idéia de quantos chefes de família não são homens e, sim, mulheres? Como é que se pode aceitar afirmação tão irresponsavelmente generalizada? E o machismo do autor mais se pronuncia logo adiante, quando a manhã é chamada de madrasta. Por que madrasta? Quantas madrastas não tratam seus enteados como verdadeiros filhos, dando-lhes carinho e amor? E os padrastos são todos uns amores? Por que não existe a palavra “boadrasta”, só madrasta?

Seguem-se dois outros exemplos chocantes, por várias razões. Passou um gato preto à sua frente. Isso implica que ele considera a passagem de um gato preto um sinal aziago, sem contar que a utilização da palavra “denegrir” demonstra o mais arraigado racismo. Quer dizer que, se a folha dele for branca, é melhor do que se for negra. Caso óbvio para a lei Afonso Arinos. E quanto ao fomento à superstição, em pleno século 21? Preservar essas crenças ridículas serve somente para deseducar a juventude e perenizar o preconceito e a ignorância. E por que gato preto? Só porque é preto? E por que um gato?

Será que ele acha que os gatos, ao contrário da opinião de parte significativa da população, são melhores do que os cachorros? Os gatos, na verdade, são melhores bichos de estimação do que os cachorros, no ver de muita gente. Que é que ele quer, exterminar os gatos, pelo menos os pretos?

Ah, o preconceito. Então ele “acenou canhestramente” para um táxi, por causa da ventania. Reparem bem. “Canhestro” tem a ver com “canhoto”. Por que os canhotos devem ser excluídos? Não há lugar na sociedade para os canhotos?

Ora, vamos e venhamos! E a escolha do feminino “ventania” só faz confirmar o machismo que se exibe novamente logo em seguida. Ele poderia ter usado a palavra “vento”, mas, como se tratava de algo que o incomodava, preferiu “ventania”, que é feminino. E nem lhe passou pela cabeça, é claro, que o motorista de táxi podia ser uma mulher. Bem verdade que a grande maioria dos taxistas é constituída de homens, mas há mulheres dirigindo táxis e já é mais do que tempo para que esse fato seja reconhecido e se colabore para que esse espaço de trabalho seja ocupado também pelas mulheres.

Não contente em perpetuar a superstição, esse texto ainda investe contra a saúde pública, que, aliás, devia tornar obrigatório não fumar em qualquer lugar, inclusive dentro dos táxis. Indiferente aos incontáveis males causados pelo cigarro, o texto, além do mais, insinua que fumar ajuda a relaxar, mais um mito que perdura graças a esse tipo de gente, que devia estar na cadeia, ou pagar uma multa pesada por cada cigarro que consumisse ou desse. E essa palavra “putativa”, hem? Afora ser pernóstica, tem uma semelhança intolerável com um termo chulo, que precisa ser banido do vocabulário.

Mas a coisa não acaba aí. O machismo, que é seguramente a maior característica do texto, utiliza a palavra “patrocínio”. Muito provavelmente, essa palavra tem como raiz “pater”, que quer dizer “pai”, em latim. Por que não se pode trocá-la por “matrocínio”? Pura questão de preconceito, de querer pôr o sexo masculino à frente de tudo, o que, aliás, é corroborado em seguida pela menção a um acidente provocado por uma mulher ao volante, quando é fato notório e comprovado por estatísticas que as mulheres se envolvem em acidentes de trânsito muito menos que os homens.

E o estresse, hem? Quer dizer que o estresse é vencido pela transformação dos seios de uma mulher em objeto, como um bibelô, ou qualquer coisa assim.

A pobre da Wilma retribui o olhar obsceno dele com um “sorriso coquete” provavelmente porque, na humilde posição de ascensorista, não ia querer desagradar um alto funcionário da firma — podia até perder o emprego. Se isso não é assédio sexual, então não sei mais o que é assédio sexual.

Infelizmente não há mais espaço para continuar os comentários. Mas vocês mesmos podem achar mais exemplos de comportamento politicamente incorreto, nesse “texto inocente”, ou no próprio texto desta crônica. Por que “irritar”? As Ritas deste mundo devem deixar de existir? E a parte em que ele fala em sustentar a mulher, como se a dona de casa não trabalhasse até mais do que ele e sem remuneração? E por que “empregada” e não “empregado”?

A cozinha e a arrumação são territórios exclusivos da mulher? E os filhos aborrecentes, trocadilho abominável com “adolescentes”, que, além de enfrentarem uma fase dificílima na vida, ainda têm que suportar pejorativos?

E o desrespeito contido na expressão “programa de índio”? É um nunca-acabar, meus amigos. O melhor mesmo é não dizer nem escrever mais nada. Nunca antes o silêncio foi tão de ouro.

P.S. Cartas de protesto para o editor, pelo amor de Deus.



João Ubaldo Ribeiro

Um comentário:

Alejandra disse...

hehe
Pode estar certo, mas achei um pouco exagerado! Quase parece um com mania de perseguição ;)
Realmente tem partes preconceituosas e machistas, notei antes mesmo das críticas, mas há algumas que são meio forçadas, como a da Rita ou ventania.
Há palavras que podem ficar melhor em um contexto.
No caso da irritacao e madrasta, elas já existem, parecendo uma coisa ou não, iriamos aboli-las e criar outras em seus lugares?
Posso concordar que não tinha porque usar "manhã madrasta", além de querer se referir à lenda da Cinderela e brincar com aliteração. Mas realmente, desnecessário. Melhor tivesse usado "manhã mal-humorada" que tambem tem a brincadeira.