19.3.07

A velha (conto)


Lúgubre. Seria o adjetivo perfeito para caracterizar a idéia que faço dos pensamentos que vêm me assombrado durante esses últimos dias. Lúgubres. Sim, admito. E essa confissão é um sopro hirto na minha garganta. Imóvel. Que não sairia nem por pedido Divino. Até porque eu já não os quero longe de mim.

Os dias cinzentos me trazem a certeza de qual é meu grande mal. E dele devo morrer em breve. Porque não há ser humano qualquer que viveria em paz sabendo que gesta dentro de si tamanho horror. Sofro de um mal que causaria náuseas aos meus semelhantes: meu coração é seco e mau.

Desgraças, sacrifícios, tragédias. Nada disso me aborrece. Muito menos me tira do sério. Sou seca. Seca como aquele tronco de árvore que não é regado há décadas, nem por chuva, nem por mãos alheias. Aquele tronco que se esfarela de secura e é incapaz de sustentar mesmo as mais primárias formas de vida. Seca.

Percebi essa falha de caráter desde a infância. Os olhos infantis perscrutavam qualquer tragédia prestes a acontecer, de forma a buscar melhor ângulo para a visão do tal acontecimento. Pena nunca senti. Ouvi certa vez que o destino nada dá que não seja merecido. Acreditei fielmente. E adorava ver esse destino agindo.


Aquela senhora me punha nervosa. Seu rosto inexpressivo. Seu pescoço enervado. Sua pele mole e doída. Sua bengala de madeira encardida, cujo barulho ao tocar o chão era insuportável. Seus poucos fios de cabelo que emergiam daquele couro cabeludo horrível. Sua maneira grotesca de andar e tossir. Ela por completo me deixava aflita. Sua simples existência era um insulto a minha pessoa. Sua visão me aterrorizava.

Desde a infância a visão da senhora me enervava. Tinha sonhos malditos com aquela mulher de aparência disforme. Passei a pensar que não poderia mais esperar que o destino agisse em meu favor e retirasse de minha vista aquela visão horrenda. Estava aí o começo da minha perdição. A velha virou espécie de obsessão, uma monomania. Não conseguia pensar em mais nada. Nem a comida tinha mais gosto. Só pensava em dar fim ao que me enojava. Tinha de planejar tudo rigorosamente, detalhes mínimos não deveriam ser esquecidos.

A verdade é que queria que ela sofresse. Queria que ela sofresse para me compensar esses anos que me fizera conviver com sua imagem apavorante. Aqueles dentes amarelos e mal dispostos não iriam mais sorrir. E nestes pensamentos me embriaguei durantes semanas. Talvez meses, não sei bem.

A velha morava sozinha. Pudera! Nenhuma alma agüentaria viver ao lado daquela criatura macilenta. Numa noite dessas não agüentei. Virava para lá, virava para cá. Nada me fazia pegar no sono. Eu sabia bem que tinha de cumprir minha missão, e lá fui eu.
Na casa da velha fazia silêncio. Um silêncio grande demais para mim. E pesava tanto esse silêncio, que fazia como se cada uma de minhas pernas pesasse toneladas. E me custava toneladas levantá-las novamente a cada vez que as punha no chão. Porém, o destino aguardava por mim. E eu cumpriria minha missão com excelência.

Ouvi uma respiração pesada. Presumi que a velha devia dormir dentro do cômodo do qual vinha o barulho. Tive de conter-me, pois a ansiedade me deixava assaz agitada.

Abri a porta, devagar. Era a própria visão do inferno. Nunca esquecerei aquela imagem. Como poderia ser mais feia ainda enquanto dormia? Vê-la causou-me um enjôo terrível, e quis vomitar. Mas não pude. Apertei com a mão minha barriga, retorci-me em silêncio. Ela ainda dormia. A face mais horrenda do que qualquer dia antes. A boca entreaberta deixava escorrer líquido semelhante à saliva. Mas saliva não era, era algo muito mais podre que isso. Os olhos entreabertos também, mas as órbitas todas brancas. Os olhos reviravam como num pesadelo enquanto dormia. O barulho que fazia ao dormir era algo ainda pior. Não era ronco. Devia ser algum dialeto usado por Belzebu e seus discípulos encarnados. A luz que vinha da lua por entre as cortinas desbotadas iluminava sua face tornando ainda pior o aspecto da figura.

Me pus a ter espasmos por estar tão perto de realizar meu objetivo. Pulei sobre a velha, que acordou de sobressalto, ainda meio sonolenta e confusa. Fiz da maneira que havia de ser. Enfiei-lhe aquela bengala encardida goela abaixo. Vi-a grunhir como um porco sendo esfaqueado. Aquilo me aprazia. Enquanto eu afundava a bengala em sua garganta, explicava-a o porquê de sua morte. Afinal, não deve ser justo morrer sem saber o porquê. Expliquei-lhe com todas as palavras o quanto me enojava, o quanto me aterrorizava a sua visão. Logo após, impossibilitada de responder, vi-a sufocar. Sei que morreu. Deixei-a lá. A luz da lua continuava a iluminar o momento. Abri a cortina para ver a cena. Sentei-me para apreciar. Alívio. Pude enfim respirar em paz. O destino me agradeceria se pudesse.

Hoje, após sete dias da morte da velha, me ponho a pensar se foi castigo suficiente para tamanho incômodo que a mesma me causava. Talvez não. Por isso penso em algum modo de perturbar o espírito da velha, de pô-lo nervoso. Nervoso assim como ela ainda põe o meu. Vou pensar melhor sobre isso.

2 comentários:

Damien Ross disse...

Simplesmente incomparável! Já sabia que escrevias maravilhosamente, mas nesta crônica te superastes incrivelmente (como?!)!!!
Me lembra bastante Allan Poe.
Muito muito muito bom!

alejandra. disse...

Haha FODA!!!
Adorei, mesmo!!

uma das melhores partes?
1)"Sua simples existência era um insulto a minha pessoa"
2)todo o ultimo paragrafo!

Quanto orgulho!
:D

ps: adorei as fotinhas!