25.4.07

O menino que amou a lua


O amor é sabidamente o mais belo dos sentimentos.

O amor é o que dá ritmo e brilho às coisas.

Pelo amor o mundo se move, as ações acontecem. A inércia se torna quase impossível.

Pelo amor não somos seres estagnados e embriagados da monotonia infame.

O amor une e re-une todos os lados, as partes desgarradas.

Liga tudo num pulcro e cuidadoso bailar de sorrisos e vontades.

Ah, amor... Apolíneo e formoso. Porém sempre tema delicado, pretexto encorajador para centenas de romances e até tragédias.

Não é sempre que o amor acontece do jeito que deveria acontecer.


A história de hoje é sobre o menino que amou a lua. Amou sempre, desde o primeiro momento. Amou desde que abriu os olhos e a viu. Amou a lua como se tivesse nascido somente para tê-la. Desejou-a.

A lua é de enternecer os sentimentos de qualquer um, principalmente os dele, que era desde sempre solitário. Era solitário e melancólico. Triste, como um pássaro de asas cortadas, porque ansiava voar para tocar a belíssima lua. Seu desejo era seu algoz. Sua vontade era pungente e maldita, porque amargava e contraía o coração sem apresentar aparente ou possível solução. Para ele, era melhor que tivesse nascido seco do que tão sensível e de sentimentos tão exacerbados.


Há anos já não vivia com os pais. Morava no ponto mais elevado conhecido, para tentar estar mais perto de sua prezada. Contudo sua vontade ainda estava longe de ser contemplada, pois a lua continuava a milhas de distância, permanecia inalcançável e intocável como de costume.


O jeito então seria subir. E ele subiu. Durante noites e noites ele subiu. Um tijolo embaixo do outro e ele cada vez mais em cima. Cada noite, mais tijolos. Noite após noite... só os tijolos. Sua escalada parecia eterna, mas havia de ter um fim. Um dia ele se encontraria com sua idolatrada e ambos seriam felizes eternamente num matrimônio abençoado pelo Divino.


Agora ele via a si mesmo quase no céu, via-se deixando a Terra e adentrando no terreno iluminado de sua excelsa rainha. A Terra ia ficando cada vez mais embaixo, ia sumindo, desfazendo, desfarelando, desfalecendo.


Foram dezenas de noites na incansável tentativa de alcançar a grande pérola lampejante. Foram noites e mais noites de incontestável esforço. Noites e mais noites com seu pescoço voltado para cima, admirando a querida, até que cansou. Lá de cima, ele olhou para baixo, pela primeira vez. E olhando para baixo viu as águas do mar. Estava escuro e a água cristalina e mansa exibia a castiça figura tão almejada. Ela estava lá embaixo! A lua havia descido à procura dele enquanto ele subia à procura dela! Mas é claro... A sua amada estava lá embaixo aguardando-o, mais primorosa que nunca. Impecável, exímia, especiosa...


E lá de cima ele mergulhou ao seu encontro.


No dia seguinte, os jornais falaram brevemente de um menino afogado nas águas do mar.

2 comentários:

Damien Ross disse...

Imerso no oceano, seu corpo afundou algumas centenas de metros, iluminado apenas pela luz de sua senhora, a lua.
Seus olhos fecharam-se quando ainda estava sua boca num sorriso final, doce, admirando a gélida água noturna em tons de prata.

Alejandra disse...

Lindo conto e belo final de Damien!!

Apesar de sentir uma semelhança com um conto do nosso folclore :P

Eu também sou encantada pela Lua, é linda... todas as noites a procuro :)